No time do meu tio Maurício era o Carlos, que todo mundo chamava de Bolinha. Meu tio já se foi, mas naquela época me levava nas peladas de sábado, e eu ficava na beira do campo esperando o jogo acabar. O Bolinha já era véio. Jogava de tênis furado, camisa pra fora, a barriga de quem toma cerveja depois do jogo faz trinta anos, figura. E eu passava a tarde inteira achando aquilo um absurdo, porque o homem não corria. Os outros desciam pra marcar, subiam pra atacar, voltavam ofegantes, e o Bolinha andava de um lado pro outro no meio do campo que nem quem tava voltando da padaria.
Só que a bola chegava nele. Sempre chegava. E quando chegava, ele já sabia pra quem ia passar antes de ela encostar no pé. Não era rápido, não driblava ninguém, não gritava com o time. Mas o jogo girava em torno daquele figura parado.
Um dia perguntei pro meu tio por que o Bolinha não corria, achava ele folgado. Ele riu e falou uma coisa que eu só fui entender muitos anos depois: "Ele não corre porque já correu tudo isso, piá. Agora ele só sabe onde a bola vai cair."
ele não corre porque já correu tudo isso, piá. Agora ele só sabe onde a bola vai cair.
Correr, todo mundo corre. Dá pra juntar um time de gente rápida, disposta, com energia pra suar a camisa toda. Isso não é difícil. Difícil é ter no meio do campo alguém que já viu aquele lance acontecer mil vezes e sabe pra onde a bola vai antes dela ir.
Penso nisso direto no que a gente faz. Aparece muita gente disposta, com a estrutura montada, equipe animada, tudo pronto pra correr o jogo inteiro. E tem hora que correr não é o que resolve.
Tem hora que o que resolve é alguém que já pisou naquele campo antes. Que viu aquilo dar errado uma vez e não vai deixar acontecer de novo. Que sabe que às cinco da tarde o sol bate de um jeito que o público some. Que sabe que a ação que lotou a loja ano passado não vai funcionar igual esse ano, porque abriu concorrente na esquina e a rua mudou. Que sabe que quem manda de verdade naquela comunidade não é quem tá no crachá, é o dono do bar que fica na frente.
Nada disso tá em planilha. Nada disso se contrata pra ontem. Não dá pra acelerar. Só existe em quem ficou tempo suficiente no mesmo campo pra parar de correr atrás da bola e começar a saber onde ela cai.
E de fora parece talento. Parece dom, parece que o cara nasceu sabendo. Não nasceu. É tempo de campo que ninguém vê, e que não cabe em proposta nenhuma.
Toda marca, uma hora, escolhe quem vai botar no meio do campo dela. Dá pra escolher pela velocidade, pela energia, pelo tanto de gente disposta a correr. Ou dá pra escolher quem já jogou ali antes e sabe onde a bola vai cair antes dela cair de verdade.
O Bolinha nunca foi o que corria mais. Era o que conhecia o jogo. E era com ele no meio do campo que o time do meu tio ganhava. Levei anos pra entender que é exatamente isso que a gente faz aqui na Canal: não chegar com mais gente pra correr, chegar como quem já conhece o campo antes do jogo começar.